Calor extremo, seca, incêndios e os impactos na saúde, na água e na alimentação
Fenômeno climático intensifica ondas de calor, pressiona sistemas urbanos e expõe a vulnerabilidade das cidades brasileiras diante de eventos extremos.
O El Niño voltou a expor a fragilidade das cidades brasileiras diante de eventos climáticos extremos. Ao alterar o regime de chuvas e elevar as temperaturas em várias regiões do país, o fenômeno amplia riscos para a saúde, pressiona o abastecimento de água e alimentos e favorece estiagens, queimadas e incêndios em áreas urbanas e periurbanas.
Em linhas gerais, o El Niño ocorre quando as águas do Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal, o que muda a circulação atmosférica e reorganiza o clima em diferentes partes do planeta. No Brasil, os efeitos costumam aparecer de forma desigual: mais calor em várias regiões, menos chuva em áreas do Norte e Nordeste e maior chance de extremos no Sul. Nos episódios recentes, esse padrão ficou evidente. O INMET registrou que 2023 foi o ano mais quente da série histórica no Brasil até então, e 2024 superou a marca, com temperatura média de 25,02°C, 0,79°C acima da média histórica de 1991/2020. Já o monitoramento do órgão indicou que o El Niño atingiu sua maior intensidade em dezembro de 2023, com anomalia de 2,0°C acima da média, antes de iniciar enfraquecimento em 2024.
NÚMEROS QUE AJUDAM A DIMENSIONAR O PROBLEMA
- Em 2024, a temperatura média no Brasil ficou em 25,02°C, acima da média histórica de 24,23°C.
- Em 2023, a média anual foi de 24,92°C, também acima da referência histórica.
- Em janeiro de 2024, o CEMADEN registrou 935 municípios com seca severa e 70 com seca extrema.
- O mesmo levantamento apontou 2.083 municípios com pelo menos 40% das áreas de uso impactadas pela seca em atividades agrícolas e pastagens.
EL NIÑO E ILHAS DE CALOR
Nas cidades, o calor provocado pelo El Niño não chega sozinho. Ele se soma ao efeito das ilhas de calor urbanas, agravado por asfalto, pouca arborização, adensamento construtivo e baixa ventilação. O resultado é uma sensação térmica mais agressiva, com noites quentes, recuperação fisiológica reduzida e maior exposição de crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.
A literatura recente também aponta efeitos diretos do calor extremo sobre a saúde. Especialistas destacam desidratação, perda de eletrólitos, aumento da sobrecarga cardiovascular e agravamento de doenças respiratórias durante ondas intensas de calor. O Instituto de Geociências da Unicamp citou estimativa de cerca de 120 mil mortes associadas às ondas de calor no Brasil entre 2000 e 2019. Nas cidades brasileiras, isso aparece de forma concreta: aumento de atendimentos de urgência, maior procura por unidades de saúde e dificuldade para trabalhadores expostos ao sol, como entregadores, ambulantes, agentes de limpeza e profissionais da construção civil. Quando o ar fica mais quente e seco, cresce ainda o desconforto respiratório e o risco de exaustão térmica.
SINAIS DE ALERTA À SAÚDE
- Sede intensa, tontura e fraqueza podem indicar desidratação.
- Febre alta, confusão mental e prostração exigem atendimento médico imediato.
- Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças cardíacas ou renais estão entre os grupos mais vulneráveis.
À MESA: ÁGUA E ALIMENTOS SOB PRESSÃO
O impacto do El Niño não fica restrito ao termômetro. A piora da seca afeta reservatórios, rios, abastecimento urbano e produção de alimentos, criando uma cadeia de pressão sobre as cidades. Em boletins do CEMADEN e do Monitor de Secas, há registro de agravamento de estiagens em diferentes regiões, com destaque para Norte, Centro-Oeste e Nordeste em momentos distintos do ciclo.
No campo urbano, isso se traduz em risco de racionamento, redução da oferta em bairros periféricos e maior custo operacional para companhias de saneamento. Já na alimentação, a combinação entre perdas de safra, problemas logísticos e queda na produtividade de hortifrutigranjeiros tende a repercutir no preço final dos alimentos, especialmente nos itens mais perecíveis. A insegurança hídrica também agrava a higiene doméstica, o funcionamento de escolas e o atendimento em equipamentos públicos. Quando a água falta, faltam também condições básicas para prevenção de doenças, preparo de alimentos e manutenção de rotinas mínimas em creches, hospitais e abrigos.
EFEITOS INDIRETOS NA VIDA URBANA
- Menor disponibilidade de água compromete higiene, saúde e serviços públicos.
- Quebras de safra e perdas logísticas pressionam o preço dos alimentos.
- Bairros periféricos tendem a sofrer mais com interrupções de abastecimento e maior exposição ao calor.
SECA, FOGO E FUMAÇA
O elo entre El Niño, seca e incêndios é um dos mais perigosos para as cidades brasileiras. O CEMADEN alerta que condições de seca combinadas com ondas de calor aumentam a chance de incêndios em pastagens e florestas, com impactos que chegam às áreas urbanas por meio da fumaça, da redução da qualidade do ar e da sobrecarga nos serviços de saúde.
Em 2023, veículos de imprensa e instituições de monitoramento já destacavam alerta para incêndios em grande parte do território nacional durante a vigência do fenômeno. A fumaça das queimadas é especialmente danosa para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias. Ela piora quadros de asma, bronquite e DPOC, além de elevar a demanda por atendimento médico em períodos de crise ambiental. Quando a estiagem se prolonga, o risco não fica restrito ao fogo rural: em áreas urbanas, aumenta a vulnerabilidade de terrenos baldios, margens de rodovia, encostas com vegetação seca e áreas de ocupação irregular. Em paralelo, a falta de chuva também afeta o cotidiano das prefeituras, que precisam lidar com limpeza urbana, irrigação de áreas verdes, manutenção de parques e abastecimento de água para combate a incêndios.
INCÊNDIO E CIDADE
- Seca e calor aumentam a chance de fogo em áreas vegetadas e de transição urbana.
- A fumaça agrava doenças respiratórias e eleva a pressão sobre hospitais e UPAs.
- A prevenção depende de limpeza de áreas críticas, fiscalização e comunicação rápida com a população.
O QUE AS PREFEITURAS PRECISAM FAZER
A resposta municipal ao El Niño precisa ser coordenada e antecipada. Não basta acionar a defesa civil depois da crise: é preciso integrar saúde, assistência social, meio ambiente, saneamento, educação e comunicação institucional em um plano único de mitigação e resposta.
Entre as medidas mais urgentes estão a ampliação de alertas para ondas de calor, a revisão de protocolos em escolas e unidades de saúde, a criação de pontos de hidratação e a definição de rotas de apoio para bairros com maior vulnerabilidade climática. Em regiões sujeitas a fumaça e incêndio, o município também precisa monitorar a qualidade do ar e reforçar orientações à população. No campo hídrico, a prioridade é proteger o abastecimento em áreas com risco de escassez, com atenção para reservatórios, poços, caminhões-pipa e distribuição emergencial. Já na frente alimentar, prefeituras podem apoiar feiras locais, centrais de abastecimento e bancos de alimentos, além de monitorar a oscilação de preços em itens básicos.
“Plano municipal de resposta ao El Niño”:
- Curto prazo: alerta, hidratação, atendimento, fiscalização.
- Médio prazo: proteção de reservatórios, apoio a escolas e unidades de saúde.
- Longo prazo: arborização, drenagem, planejamento urbano e resiliência climática.
COMO A POPULAÇÃO PODE SE PROTEGER
A orientação à população precisa ser direta, simples e repetida. Em períodos de calor extremo, hidratação frequente é fundamental, assim como evitar exposição ao sol entre 10h e 16h, usar roupas leves e proteger especialmente crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas. Também é importante economizar água sem comprometer higiene e saúde, armazenar corretamente quando houver abastecimento intermitente e evitar qualquer prática que possa iniciar focos de incêndio. Na prática, pequenos cuidados fazem diferença. Uma rotina de checagem de vizinhos idosos, atenção a sintomas de mal-estar e suspensão de atividades ao ar livre em horários críticos já reduzem riscos. Em bairros mais quentes e secos, a população também pode buscar espaços com sombra, ventilação e acesso a água, especialmente nos dias de pico térmico.
DICAS RÁPIDAS PARA O DIA A DIA
- Beba água ao longo do dia, mesmo sem sede.
- Diminua esforço físico nos horários mais quentes.
- Redobre os cuidados com crianças, idosos e doentes crônicos.
- Evite fogueiras, queimadas e descarte de lixo em áreas secas.
- Procure ajuda médica se houver confusão mental, falta de ar ou desmaio.
PRIORIDADES PARA OS MUNICÍPIOS
Diante do avanço do El Niño, as cidades brasileiras precisam agir em duas frentes: prevenir os danos imediatos e preparar respostas duradouras para um clima cada vez mais extremo. O fenômeno amplia riscos à saúde, pressiona o abastecimento de água e alimentos e eleva a vulnerabilidade de bairros inteiros a queimadas, estiagens e ondas de calor. Nesse cenário, a combinação entre planejamento público, comunicação clara e cuidado cotidiano faz diferença. Gestores precisam reforçar protocolos, integrar secretarias e priorizar áreas mais expostas; a população, por sua vez, pode adotar medidas simples que ajudam a reduzir impactos e salvar vidas. O recado é direto: quando o clima muda, a cidade também precisa mudar sua forma de se proteger.




